segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Professor Refém de um Sistema Econômico, o elefante adormecido.

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Resposta a um desses milhões e-mails que circulam difundindo idéias reflexivas em torno de problemáticas que exigem muita reflexão, não que eu seja pai da reflexão, mas não poderia deixar de responder. Sugiro que leiam primeiramente o e-mail e depois a resposta.

Olá Verônica, 

Vou tentar ser interlocutor, e criar um pouco de debate e remontar/desmontar/montar algumas coisas, sou Pedagogo e atuei por oito anos na rede pública de educação, hoje sou trabalhador do Sistema Único de Assistência Social, também um sistema público. Não quero de modo algum ser mal interpretado ou lido como mais alguém contra os professores, pois na mesma condição sofri/sofro/sofremos (masoquismo social.. rsrsrsr) na mesma intensidade os problemas vivenciados não unicamente em uma sala de aula, mas numa dimensão de País. Desse modo, venho contribuir ao seu e-mail da seguinte forma, por se tratar de um desabafo, e quando desabafamos realmente algumas coisas são deixadas de lado, pois dizemos o que sentimos, inclusive passamos a respirar livremente após o ato. O interessante é que você desabafa um descontentamento que não é somente seu, mas de muitos profissionais, das várias categorias que estão inseridos em Sistemas Públicos, principalmente os sistemas que concedem segurança de sobrevivência. Nesse caso trataremos do desabafo em torno da Educação. 

Responderei sua primeira pergunta amparado simplesmente numa perspectiva do materialismo-histórico, mesmo que essa abordagem de Marx e Engels tenha sido criticada e tenha sido rechaçado constantemente pelos Liberais e os (Neo) e todos os movimentos que estabeleceram e estabelecem o capitalismo-monopolista como a única chance de modelo societário.

Respondendo sua primeira pergunta: somente através da mobilização e de um projeto político encampado pelos mais interessados por essa modificação, nesse caso os próprios professores, eu gosto muito da metáfora que compara a classe de professores como: “Um elefante, que foi amarrado e condicionado a ser amarrado em uma vareta qualquer, ele não sabe de sua força”.

Sobre a difamação midiática, a categoria dos educadores é parte dessa vareta qualquer que amarra esse elefante, esse professor, heroico, lutador, forte e multi funcional aceitaram e aceitam essa condição naturalmente como uma ordem pré-estabelecida, buscando no seu dia-a-dia aceitar que o seu trabalho seja julgado somente como “mais valia”. A educação deixou e deixa de ser um projeto de nação para ser um mero instrumental utilizado pelo capitalismo-monopolista, um produto vendável por alguma multinacional. 

Desse modo, acredito que é necessário haver uma revisão significativa no campo legislativo, mas quem faz essa reforma? Obviamente sempre aguardamos o político ideal como um “herói existente”, permitindo assim que o elefante continue em seu tronco, e aqueles “heróis” dos outubros caem  no ódio do elefante e sua vareta, o elefante preso sente raiva de quem nele deposita sua confiança. 

Parece uma conversa chata, entediante até, ressuscitar Marx e Engels a luz da conversa, isso remete a “comunismo”, “socialismo” e outros ismos que foram enquadrando a luta de classes como algo doentio e naturalizando as desigualdades sociais, implantando o controle social das massas. Desse modo, buscou-se também no doentio “capitalismo” uma opção de ordem social, alçado na “democracia”.

Todos que discordam do sistema vigente sempre estarão na Mira da Comunicação apodrecida do monopólio midiático de nosso país (viva a internet, que me permite hoje te responder e trocar ideias em buscas de alternativas, coisa não permitida aos nossos professores e ancestrais, viva a democratização da Comunicação, antes que nos roubem, pois tem projeto de lei andando por aí).

São absurdos realmente os avanços legislativos ¿¿conquistados?? Por movimentos mundiais de combate a violação dos direitos infanto-juvenis e na militância de movimentos sociais que mesmo marginalizados e diante de plenárias e acordos internacionais conseguiram avançar no campo legislativo e conquistar as crianças/adolescentes, o direito a uma infância saudável, protegida, mas, e sempre há um “mas”, somente parcialidades do que é interessante a grande parte do senso comum e do maniqueísmo de nosso sistema econômico vigente seja explorada a exaustão dos textos legislativos.

A estratégia do “capitalismo” é fazer isso mesmo, delapidar a educação pública ao ponto de transformar ela em produto e vender, sim, pois é necessário vender, entregar a suprema burguesia o direito a educação e ainda pagar por ela, como seria a sociedade futura. Não é diferente do vendável corpo da bailarina da TV, ou do “talentoso” jogador de futebol que vende a auto preço várias marcas com seu talento.

Seus exemplos são os mais corriqueiros existentes, os pais se sentem perdidos, a nossa legislação avançada e incompreendida faz com que os pais realmente tomem uma distância tão grande da educação de seus filhos que reproduzem e reproduzem o sistema vigente, e grande parte dos professores não diferente deles também fazem o mesmo, aliás, não é difícil encontrar professores que coadunam com esse ideal de sociedade, tanto que matriculam seus filhos em escolas particulares, pois não acreditam mais em um projeto societário diferente. 

A frase perturbadora e vencedora tem razão e faz um alerta muito sério, mas vencedora sob qual ótica? Sob a ótica de que o ser humano é essencialmente maligno por isso necessita da rigidez dos provérbios bíblicos para sua educação? Ou seria sobre uma lógica de um planeta sustentável?

Sobre democracia, assim como você terminarei minha reflexão com essas perguntas que me azucrinam, lhe afirmo não saber a origem, mas é muito pertinente. Que democracia é essa? Quando vai ser democratizado o poder econômico? Quando vai ser democratizado o Poder Judiciário? Quando vai ser democratizado o poder Legislativo? Quando vai ser democratizada a essência do direito humano “que é o direito de se ter direitos”? (essa última é afirmação de Hanna Arendt sobre direitos humanos).

Sem apologia a governos ou planos governamentais, vejo que em 2009 os professores tiveram uma excelente oportunidade de exercitar a cidadania, a participação social e decisiva através das conferências educacionais de um debate para consolidação de uma política pública do povo para o povo. 

Um grande abraço no Coração de um trabalhador de luta e labuta, 

Como seu artigo foi publicado em um blog, tomei a liberdade de também publicar minha resposta. 

PROFESSOR UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO      
Por Verônica Dutenkefer 
Esse texto que escrevo precisamente agora é mais um desabafo.
Desabafo de uma profissional que está lecionando há mais de 22 anos e que não
sabe se sobreviverá por mais dez anos,  que é o tempo que ainda precisará trabalhar
(por mais que ame muito o que faz).
Trago comigo muitas perguntas que não querem calar. E talvez a mais inquietante seja:
O que será necessário acontecer para se fazer uma reforma educacional neste país????
Constantemente, ouço ou leio reportagens com as autoridades educacionais proclamarem
a má formação de seus professores. Culpando as universidades, a falta de cursos de
formação e culpando-nos, evidentemente.
Questionamentos:
Como um professor de escola pública pode fazer o seu trabalho se ele precisa
ficar constantemente parando sua aula para separar a briga entre os alunos, socorrer
seu aluno que foi ferido por outro aluno, planejar várias aulas para se trabalhar os
bons hábitos, na tentativa vã de se formar cidadãos mais conscientes e de melhor caráter?
Nos cursos de formação nos é passado constantemente a recusa de um programa
tradicional e conteudista, mas nossas avaliações de desempenho das escolas, nossos
 vestibulares e concursos públicos ainda são tradicionais e  nos cobram o conteúdo
de cada disciplina.
Como pode num país.....num estado...num município haver regras tão diferentes entre
a rede particular e pública?
Na rede particular as escolas continuam conteudistas, há a seriação com reprovação,
a escola pode suspender ou até mesmo expulsar um aluno que não esteja respeitando
as regras daquela instituição.
A rede pública vive mudando o enfoque pedagógico (de acordo com o partido que
ganhou as eleições), é cobrado cada vez menos do aluno, não se pode fazer absolutamente
nada com um aluno indisciplinado que até mesmo coloca em risco a segurança de outros
alunos e funcionários daquela instituição.
Dia a dia... minuto a minuto... os professores são alvos de agressões verbais e até mesmo
físicas pelos alunos. A cada dia somos submetidos a níveis de stress insuportáveis para
um ser humano.
Temos que dar conta do conteúdo a ser ensinado + sermos responsáveis pela segurança
física de nossos alunos + sermos médicos + enfermeiros + psicólogos + assistentes sociais
+ dentistas + psiquiatras + mãe + pai ......
E, quando ameaçados de morte, se recorremos a uma delegacia pra fazer um boletim
de ocorrência ouvimos: Isto não vai adiantar nada!
Meus bons alunos presenciam o mau aluno fazendo tudo o que não pode ser feito
e não acontecendo nada com ele. É o exemplo da impunidade desde a infância..
Meus bons alunos presenciam que o aluno que não fez absolutamente nada durante o ano,
passou de ano como ele, que se esforçou e foi responsável.
Houve um ano que eu tinha um aluno que era muito bom. E ele começou a faltar muito
e ir mal na escola. Os colegas diziam que ele ficava empinando pipa ao invés de ir pra escola.
Um dia, tive uma conversa com ele, e perguntei o que estava acontecendo? E ele me disse:
Prá que eu vou vir prá escola se eu vou passar de ano mesmo assim?
Então eu procurei aconselhar (como faço com meus alunos até hoje) que ele devia frequentar
a escola, não para tirar notas boas nas provas ou passar de ano. Ele deveria vir à escola
para aumentar seu conhecimento que é o único bem que ninguém poderá roubar.
Que a escola iria ajudá-lo a aprender e trocar conhecimentos com os outros e ajudá-lo a
dar uma melhor formação na vida..
Depois dessa conversa ele não faltou mais tanto... mas nunca mais voltou a ser o excelente
aluno que era.
Qual a motivação de ser bom aluno hoje em dia?
Seus ídolos são jogadores de futebol que não falam o português corretamente e que
não hesitam em agredir seus colegas jogadores e até mesmo os árbitros. Ensinando que
não é necessário haver respeito às autoridades e aos outros.
Ou são dançarinas que mostram seu corpo rebolando na televisão e pousando nuas para
ganhar dinheiro.
Para quê eu me matar de estudar se há tantas profissões que não são valorizados
e nem respeitadas? ??
Conheci (e ainda conheço e convivo) ao longo de minha carreira na escola pública,
inúmeros profissionais maravilhosos. Pessoas que amam a sua profissão, que se preocupam
com seus alunos, que fazem trabalhos excepcionais. Que possuem um conhecimento e
formação excelentes, mas que estão desgastados e quase arrasados diante da atual
situação educacional.
Li há poucos dias, num artigo que os cursos de filosofia, matemática, química, biologia
e outros todos ligados à área de magistério não estão tendo procura nas universidades.
Lógico!!!!!Quem é que quer ser professor??? ??????
Quem é que quer entrar numa carreira que está sendo extinta, não só pela total desvalorização
e respeito, mas também pela falta de segurança que estamos enfrentando nas escolas?
Fiquei indignada com uma reportagem na TV (que, aliás, adora fazer reportagens
sensacionalistas colocando o professor sempre como vilão da história) em que relatava que
numa escola um aluno ameaçava os outros com um revólver e, num determinado momento,
o repórter perguntou:  Onde estava o professor que não viu isso??!!
E agora eu pergunto: O que se espera de um professor (ou de qualquer ser humano),
que se faça com uma arma apontada pra você ou pra outro ser humano??? Ah...já sei...
o professor deveria enfrentar as balas do revólver!!!! Claro!!! As universidades e os
cursos de aperfeiçoamento de professores não estão nos ensinando isso..
Vocês têm conhecimento de como os professores de nosso país estão adoecendo??? ?
Vocês sabem o que é enfrentar o stress que a violência moral e física tem nos submetido
dia a dia?
Você sabe o que é ouvir de um pai frases assim:
Meu filho mentiu, mas ele é apenas uma criança!
Eu não sei mais o que fazer com o meu filho!
Você está passando muita lição para meu filho, e ele é apenas uma criança!
Ele agrediu o coleguinha, mas não foi ele quem começou.
Meu filho destruiu a escola, mas não fez isso sozinho!
Classes super lotadas, falta de material pedagógico, espaço físico destruído, violência,
desperdício de merenda, desperdício de material escolar que eles recebem e, muitas vezes,
não valorizam (afinal eles não precisam fazer absolutamente nada para merecê-los),
brigas por causa do Leve-leite (o aluno não pode faltar muito, não por que isso
prejudica sua aprendizagem, mas porque senão ele não leva o leite.)
Regras educacionais dissonantes de acordo com a classe social dos alunos.
Impunidade.
Mas a educação não vai bem, por causa do professor..
Encerro esse desabafo com essa pergunta que li há poucos dias:
Essa pergunta foi a vencedora em um congresso sobre vida sustentável.


"Todo mundo  'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos  filhos...
Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"

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